A familia da minha mulher é de S. Miguel D´Acha no distrito de Castelo Branco, concelho de Idanha-a-Nova. Beira Baixa no seu melhor. Para além de não saberem arranjar nomes de terras locais em lingua portuguesa, com a mania dos apóstrofes e tracinhos, têm uma peculiar maneira de falar usando o infinitivo dos verbos no decorrer das conversações: "Vir-entrar-subir-sentar-comer", por exemplo, é utilizado assim mesmo para substituir uma frase como "Bom dia, está bom? Não quer vir a minha casa? Ande lá. Entre, por favor. Cuidado com o degrau, tem que subir essa escada. Eu vou á frente. Olhe esta é a minha sala. Já viu esta fotografia da minha neta? Sente-se, por favor. Tem que comer um pouco de bolo que está na mesa."
A isso eu responderia: "Ó D. Maria, espere aí que eu estou agora a entrar em casa. Você é muito rápida para mim."
Sentar-me-ia então á sua mesa, á minha frente uma fatia de bolinho acompanhado dum chá enquanto ela continuava, "Beber-comer. Comer-beber." Passava-me o açucar, "Pôr-mexer." Conversaríamos um bocado, ela no seu mirandês-beirão, eu a acenar com a cabeça e responder-lhe-ia a certa altura, "Saltar-correr-jogar-beber, esfregar-coçar-abrir-pular-olhar, andar-fugir-emborcar, chover." E ela tirava-me de imediato o bolo das mãos.