Têm-se assistido nestes últimos tempos, entre artigos de opinião e intervenções nos diversos blogues da especialidade a uma guerrinha de palavras entre os neo-Keynesianos (Krugman, DeLong) e os defensores da escola de Chicago. Krugman e Delong apoiam o pacote de estimulo de Obama para a economia norte-americana no valor de 850 biliões de dólares e afirmam mesmo (pelo menos Krugman fá-lo) que pode até não ser suficientemente grande para a crise em que estamos. Os monetaristas de Chicago afirmam que dinheiro gasto pelo estado é dinheiro que está a ser retirado aos investidores privados, visto que o estado tem que se financiar em algum lado, privados esses que o poderiam investir com um maior grau de eficácia. Para tal opõem-se em principio ao plano advogando em sua vez cortes de impostos. O que é semelhante ao que os Republicanos sempre propuseram, aliás formando a base do raciocinio económico desse partido nas últimas décadas. Vemos idêntica ideia no PP de Paulo Portas. Se não tivéssemos na crise em que estamos, defender a redução do sector público e a sua % de despesas no PIB e assim preconizar a baixa da carga fiscal é válida não só para a direita de Portas mas mesmo para uma certa esquerda de centro. Como Portas lança esse argumento no meio da crise em que estamos não passa de populismo. Não resolve nada, até antes pelo contrário.
Mas estou a divagar. O que Krugman diz, e aparentemente com razão, é que a politica monetária perdeu a sua eficácia (pressuponho aqui que os monetaristas advogam também taxas de juro baixas). Os EUA estão numa "Liquidity trap" com as taxas perto de zero. Qualquer expansão da base monetária não trará qualquer efeito sobre a economia e o PIB. Resta apenas a arma orçamental através dum New "New Deal". Os Republicanos têm tentado exterminar ao longo destas décadas desde a Segunda Guerra Mundial todos os efeitos que o New Deal original trouxe á economia americana: alguma segurança social e regulamentação bancária são um exemplo. Qualquer plano que soe minimamente socialista é atacado veementemente. Mesmo por parte de muitos democratas. É extraordinário o efeito que a palavra tem na mentalidade Norte Americana. Nem mesmo a esquerda mais á esquerda no partido democrata consegue balbuciar a palavra em público.
Para além disso, do que tenho lido, o multiplicador para as despesas publicas é maior que o multiplicador para os impostos. Ou seja, o efeito que um dolar terá na economia é superior ao efeito que a redução de um dolar de impostos tem. E parece ser válido tanto nos EUA como no resto do mundo. Uma redução de impostos aumenta de facto o rendimento disponível das famílias, mas parte desse rendimento é poupado pelo que o impacto sobre a economia é menor. Os exemplos dados pelos próprios Republicanos atestam que estes reduziram ao longo destes oito anos os impostos e o déficit aumentou. Eles preconizavam que a redução dos impostos facilitaria a vida ás familias e aos empresários e isso aumentaria o rendimento disponível e consequentemente o investimento e como tal aumentaria o PIB e com isso aumentaria também o montante de impostos cobrados. Tal não parece ser o que aconteceria na economia americana. Baixa de impostos levou apenas a aumentos do deficit.
Outro argumento utilizado pelos monetaristas tem a ver com o efeito de "crowding out" que um pacote daquelas dimensões pode ter. Qualquer despesa publica, em alturas normais, aumenta nos primeiros 1 ou 2 ou 3 anos o PIB. Mas este aumento do PIB faz aumentar os preços na economia e com isso aumenta a taxa de juro. Com o aumento da taxa de juro diminui o investimento e com isso cai o PIB. Essa queda pode teoricamente ser maior que o aumento do PIB e daí a questão colocada pela rapaziada de Chicago. Mas numa Liquidity trap os preços não aumentam por causa do aumento das despesas publicas, visto que a expectativa dos agentes é de que haja inflação zero ou mesmo deflação. Consequentemente a taxa de juro não aumentará por essa via e com isso não deveremos esperar um grande efeito de crowding out. Pelos menos é este o argumento de Krugman e parece-me, na minha pequenez, que é acertado.